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A força dos mudras
Mãos e o corpo todo em ação para gerar e manter prana, a energia vital
“Shiva ensinou dez gestos que proporcionam os oito poderes paranormais(siddhis); os yogis perfeitos (siddhas) se esforçam em sua prática, mas os mudras são difíceis de serem dominados, mesmo para os deuses” – Hatha Yoga Pradipika. A prática de Yoga gera uma quantidade de energia quase palpável. Mas essa energia pode se dissipar no primeiro engarrafamento ou fechada que tomamos no trânsito. Uma das técnicas para gerar mais energia e mantê- la circulando no corpo por mais tempo é a prática de mudras. Segundo George Feuerstein em seu livro Uma Visão Profunda do Yoga (ed. Pensamento), “o termo sânscrito mudra – que significa literalmente selo – é associado a práticas yogis feitas para conter, dirigir ou aumentar a força vital”.
No ocidente, quando ouvimos a palavra mudra (lê-se “mudrá”) pensamos em gestos complicados com as mãos. Apesar de existirem também na prática de Yoga, esses mudras são muito utilizados na dança clássica indiana para contar histórias. “O dançarino mímico pode expressar em dois minutos aquilo que o teatro verbal diz em duas horas”, explica Ingrid Ramm-Bonwitt em seu livro Mudras: as Mãos como Símbolo do Cosmos (ed. Pensamento). Pedro Kupfer, autor e tradutor de vários livros sobre o assunto, explica que os mudras também podem ser posturas como os asanas ou ainda bandhas.
Nos rituais tântricos de maithuna (união sexual), mudra é o nome dado a um dos tipos de Shakti, a mulher que participa do ritual. Os diferentes tipos de mudras estão descritos nos principais textos clássicos do Yoga. O Shiva Samhita classifica-os em 16 categorias diferentes, segundo a finalidade – gestos que induzem a meditação, desenvolvem paz interior, etc.– e a forma como são feitos – gestos de pernas e pés, lábios e boca, etc... A Hatha Yoga Pradipika descreve dez tipos de mudras e o Gheranda Samhita, 25. Em ambos os textos, os mudras descritos são posturas e bandhas que, segundo Kupfer, “tocam os estratos mais profundos do ser humano, permitindo redescobrir o conhecimento escondido em cada gesto”.
O professor Osnir Cugenotta, do centro paulistano Om Yoga Kendra, afirma que essas práticas elevadas proporcionam o controle do fluxo do prana no corpo, que é normalmente dissipado no mundo externo por meio dos cinco sentidos. Esse controle permite o redirecionamento dessa energia para os chakras superiores, proporcionando estados elevados de consciência. Anderson Allegro, professor do Aruna Power Yoga (São Paulo) e diretor técnico da Aliança do Yoga no Brasil, aconselha a prática dessas posturas no final de uma prática mais dinâmica.
Essas posturas são mais relaxantes e a energia gerada com a prática será potencializada. Os mudras que seguem estão descritos nos textos clássicos com os respectivos benefícios. Os benefícios podem assustar os mais céticos e nem sempre foram comprovados na ciência tradicional, mas rendem algumas boas histórias.
Mahamudra
“Pressione firmemente o ânus contra o calcanhar esquerdo, estenda o pé direito, segure os dedos com as mãos, contraia a garganta e olhe para o ponto ao meio das sobrancelhas. Inspirando repetidamente, encha-se de ar. Isso é chamado mahamudra” – Gheranda Samhita. A postura pode ser mantida por aproximadamente oito respirações. Deve ser repetida com a outra perna.
“Com esta prática, destroem-se os kleshas (aflições existenciais) e vence-se a morte” – Hatha Yoga Pradipika.
Viparita Karani
“O sol repousa na raiz do umbigo e a lua na raiz do palato. O sol consome o néctar da imortalidade e deste modo o homem é mantido sob o poder da morte. Ponha o sol para cima e traga a lua para baixo. Esse viparita karani é guardado em todos os Tantras” – Gheranda Samhita. “Deve-se aumentar a duração da prática de forma gradual, dia a dia. Após seis meses de prática, desaparecem cabelos brancos e rugas. Praticando-se três horas por dia, vence-se a morte” – Hatha Yoga Pradipika.
“ Os mudras tocam os estratos mais profundos do ser humano, permitindo redescobrir o conhecimento escondido em cada gesto” Pedro Kupfer
Bandhas
Uma das práticas de mudras citadas em alguns textos clássicos é o bandha traya, a contração tríplice que consiste na combinação destas três técnicas:
Mula bandha ou fecho da raiz: é a elevação do períneo. Estimula o sistema nervoso central e o muladhara chakra. Uddiyana bandha ou contração do “caminho ascendente”: é a pressão da parede abdominal contra a espinha elevando ao máximo o diafragma. A prática ativa a circulação e favorece
a união dos ares vitais prana a apana.
Jalandhara bandha ou “fecho que controla as redes”: consiste em fixar o queixo na depressão jugular no alto do peito. A prática desse bandha regula o fluxo de ar e prana na região do coração e ativa os canais de ida e pingala, de forma que o prana seja dirigido para a sushumna nadi.
“Os yogis conhecem estes três bandhas que os grandes siddhas praticavam; eles são meios fundamentais para conseguir-se o sucesso no Hatha Yoga” – Hatha Yoga Pradipika
O futuro em suas mãos
Os mudras feitos com as mãos também estão presentes nas práticas da Yoga. Segundo Osnir, “os rishis (sábios) da antiguidade perceberam, muito antes do aparecimento do homúnculo (mapeamento de terminações nervosas no cérebro), que as mãos são as partes do corpo que mais possuem terminações nervosas no cérebro”. Sabrina Mesko, em seu livro Mudras que Curam (ed. Pensamento), explica que “cada mudra redireciona, ativa e libera a energia que flui pelas nadis (canais energéticos), estimulando os centros cerebrais, nervos e órgãos, beneficiando todo o sistema físico, neuromuscular e glandular”.
Esses gestos das mãos tiveram sua provável origem nos rituais védicos. George Feurstein em seu livro A Tradição do Yoga, explica que “a origem dos gestos das mãos usados nos rituais tântricos é obscura. Eles provavelmente remontam aos tempos védicos, quando as cerimônias sacrificiais exigiam a manipulação meticulosa de objetos como a concha com que se faz a libação de soma (seiva da imortalidade)”. Anderson Allegro insere os mudras na prática de asanas e de pranayamas. Os gestos das mãos direcionam prana de maneira específica.
Depois de um tempo de prática você desenvolve a sensibilidade necessária para sentir o efeito sutil desses gestos ou posturas
Um exercício simples pode demonstrar bem como os mudras das mãos podem direcionar o ar durante um exercício respiratório e conseqüentemente o prana:
Sente-se sobre os calcanhares com a coluna ereta e os ombros relaxados. Faça o mudra demonstrado na foto ao lado com a mão esquerda e apóie a mão direita sobre a coxa. Respire durante dois minutos e tente perceber o fluxo de ar em cada um dos pulmões. A sensação é de que o pulmão do mesmo lado da mão com o mudra está mais pesado ou recebendo menos ar, como se estivesse fechado. Osnir explica que o efeito sutil dos mudras é semelhante, mas não temos sensibilidade suficiente para perceber. Os mudras abaixo estão presentes em quase todas as práticas de Yoga.
Anjali Mudra
Este mudra faz parte de várias religiões. É o gesto que fazemos quando falamos “namastê” e representa uma reverência ou saudação. Na Índia, quando as mãos são colocadas na altura do peito o gesto equivale ao nosso aperto de mão. Para saudar os deuses as mãos são postas acima da cabeça e para saudar o mestre são posicionadas à frente da testa. “Elas unem os 18 chakras que temos em cada mão, fechando um circuito importante de energia” diz Anderson Allegro.
Jnana Mudra
“Este mudra é amplamente utilizado para a prática de pranayama e meditação”, explica Pedro Kupfer. Ele fecha um circuito eletromagnético no corpo sutil do praticante, impedindo que a energia se disperse durante a prática de Yoga. A prática desse selo estimula a respiração e a irrigação sangüínea no cérebro, aumenta as capacidades intelectuais e a memória e facilita a concentração no ajna chakra, centro do conhecimento intuicional. O professor Osnir explica que esse mudra aciona o córtex motor em um nível muito sutil, gerando um circuito fechado de energia que desce do cérebro até a mão e volta novamente. A percepção consciente deste processo rapidamente leva à interiorização.
Shiva Mudra (meditação)
Este também é um mudra comum para as posturas de meditação. É um gesto receptivo que induz ao relaxamento. Segundo Ingrid Ramm-Bonwitt “Buda assumiu esse gesto quando se sentou sob uma figueira e mergulhou em meditação profunda”. As imagens do Buda no momento da iluminação mostram normalmente esse mudra. A prática de mudras pode levar a experiências de autoconhecimento profundas. “Eles produzem efeitos fisiológicos e psíquicos benéficos, proporcionando a saúde psicossomática, o equilíbrio dinâmico e a harmonia interna”, explica o físico quântico Harbans Arora que está escrevendo um livro sobre o poder curativo dos desses gestos.
Depois de um tempo de prática você desenvolve a sensibilidade necessária para sentir o efeito sutil desses gestos ou posturas. Essa consciência ajuda a gerar energia e a direcioná- la de forma a ajudar a fortalecer pontos fracos, curar e acalmar a mente. “Aquele que seguir cuidadosamente os ensinamentos concentrado na prática de mudras será capaz de vencer a morte e conseguirá
os siddhis como animan (capacidade de reduzir à vontade o tamanho do corpo) e outros” – Hatha Yoga Pradipika.
Matéria exclusiva da revista PYJ # 5

